1*
E sei que me vou desfazer em choros desalmados, não tarde nada. Sei que me vai custar a adormecer e que as noites voltarão a ser demasiado frias. Que o coração se tornará um buraco negro sem fundo e que a alma ficará repleta de cicatrizes. Que a respiração se tornará lenta e que o sufoco vai ser constante. Sei que de cada vez que me lembrar de ti, vou querer chorar. Sei que isto vai doer, que me vai roubar noites de sono e dias de calor. Sei que me vou tornar um bocadinho mais fria. Sei que voltarei a escrever mais vezes e que tudo me vai fazer lembrar de ti. Que de cada vez que passar por sítios que se tornaram nossos, vou morrer um bocadinho mais. Que toda eu voltarei a ser de papel amachucado. E, no entanto, eu sei que vou conseguir, porque tal como das outras vezes, vou continuar a ser eu. Vou continuar a rir-me feita parva de coisas sem sentido. Vou continuar a rir-me alto e a rir-me de mim própria. Vou continuar a amar o mundo, porque sou feita de coisas, de naturezas. Não de pessoas. Eu sei. Eu prometo que me vou controlar e não ter sequer a coragem de voltar atrás e assumir que a culpa é minha, porque não foi só minha. Até lá, vou continuar a achar que fomos felizes, que fomos muito felizes... Até me cansar e passar a achar que a única pessoa que foi feliz, fui eu.
Pois.
E devias ter sido a primeira pessoa a perceber que mais cedo ou mais tarde, me partiria em triliões de pedaços. Mas não percebeste. Acreditavas que era forte o suficiente para te deixar ir embora. Mas não fui. Nunca fui forte em todas as tuas partidas. Desfiz-me em todas elas. Toda eu espelhada em pedaços de porcelana. Eu, boneca de porcelana. Alma altiva, celeste. Mas coração fraco. Coração muito fraco. Devias ter percebido. Devias ter sido a última pessoa a desistir. E não foste. Não deste tempo ao tempo. Tiveste medo. Fugiste como quem foge da chuva. Entre os telhados das casas, e sem saber que toda eu me partiria. Toda eu me partiria à tua saída. Devias ter percebido. Tu, devias ter percebido. E não devias ter desistido. E eu ainda choro. Ainda vou chorar muito, porque tenho sempre muito para chorar.
One day you will.
Ainda me lembro de como e quando o conheci. Numa tarde em que o céu teimava em nos pregar partidas. Ainda me lembro da primeira vez que me abraçou e em que eu ligeiramente me afastei por ter medo. Medo do que aquilo pudesse significar. Ainda me lembro da paz que ele me transmitiu nesse dia, e do estado em que me encontrava por dentro, nesse dia. Ainda me lembro de como me habituei ao sorriso dele, ao olhar dele, à voz dele, às mãos e aos braços dele, a ele. Foi ele. Foi ele que me consertou o coração e que me devolveu a paz. Que me tornou numa pessoa um tanto quanto melhor, mais crescida, mais crente. Foi ele. Ele. Ele que nunca acreditou no amor, que nunca se arriscou num amor. E foi ele que me fez voltar a amar. Entre sorrisos, gestos, acções. E compreendeu-me. Foi das poucas pessoas que sempre me compreendeu, sem pedir nada em troca. Que me deu espaço e tempo para pensar, que me deu os dias, que animou os meus dias, todos os dias. E ele foi tudo. Uma espécie de anjo que me veio iluminar e dar cor à minha vida. Que me suportou em todas as minhas crises, que aguentou a minha raiva, que me agarrou com força e disse que era comigo que queria ficar. E eu, nunca vi isso. Eu nunca vi isso.
É.
Nunca te disse, mas não gosto de sofrer acompanhada. Não gosto que me silenciem o choro, ou que me dêm palmadinhas nas costas e me digam que tudo ficará bem, e que sobreviveremos a isto. Mais, a isto. Não suporto que me obriguem a parar de chorar, porque sou uma menina linda e as meninas lindas não choram. Nunca te disse, mas eu prefiro choros profundos, que me desgastem a voz, que me sufoquem, que me deixem sem ar. Nunca te disse, mas eu gosto da dor toda só de uma vez. Nunca te disse, eu sei.
E devias saber que toda eu era de vidro, e que partiria à primeira queda. Deverias saber que me deixarias sufocada com o mais pequeno aperto, e que me matavas com facilidade. E eu sei, deveria ter-te dito isso. Eu sei, deveria ter-te dito que toda eu sou coração desgasto. E tu, deverias-me ter dito que tudo isto era um erro.
E devias saber que toda eu era de vidro, e que partiria à primeira queda. Deverias saber que me deixarias sufocada com o mais pequeno aperto, e que me matavas com facilidade. E eu sei, deveria ter-te dito isso. Eu sei, deveria ter-te dito que toda eu sou coração desgasto. E tu, deverias-me ter dito que tudo isto era um erro.
E eu sou pequenina, do tamanho de uma concha do mar. Mas tu não sabes. Tu não sabes que eu tenho coração de vidro. Tu não sabes. Não sabes o borrão emocional em que me tornei, nem em quantas lágrimas me regenero. E é tão difícil ser pequena. É tão díficil ser assim tão frágil, tão porcelana, tão orgulho esfarrapado. Eu sei, eu sei que não percebes. Eu sei que não és capaz de me decifrar nas entrelinhas nem nos parágrafos ocultos, ou nas frases em que me reescrevo e me reinvento. Mas é tão díficil ser pequenina, do tamanho de uma concha do mar. E é tão fácil ser tua, meu amor. Tua. É tão bom quando pegas em mim, e me guardas no bolso, para que eu nunca me perca. E depois observas-me, como se fosse de uma beleza escultural. Voltas a guardar-me, a proteger-me. Do frio, da chuva, do desamor. E ficas sempre comigo, meu amor. Ficas sempre comigo.
*Gosto*
Gosto dos teus ombros. De me deitar neles, e de pensar no quanto custou chegar até aqui, e no quanto mudámos para chegar até aqui. De me deitar neles, e de dizer-te que cheiras bem. De me deitar neles, e sentir o coração muito, muito quentinho, super aconchegado, como se tu fosses uma nuvem de algodão doce, daquele bem, bem docinho. E no fim de contas, até és. No fim de contas, até me adocicas o coração. Ficas-me nas mãos, de cada vez que te toco. Ficas-me em todo o lado, meu amor. Nas mãos, nos braços, no coração. No coração Meu Amor. Gosto dos teus abraços demorados. Gosto ainda mais de me perder neles, de sentir o teu coração na boca, e de saber que posso contar contigo em todos os meus dias. Em todos os nossos dias. E não, eu não acredito em felizes para sempre. Mas acredito em amores perfeitos. Tu, és o meu amor perfeito, por isso, fica comigo até eu adormecer, todos os dias, está bem? Fica comigo, até as minhas pernas doerem de tanto caminhar ao teu lado, até os meus braços já não terem forças para te abraçar. Está bem?
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